Carminho - O Sol, Eu e Tu

Mikkel Solnado feat. Joana Alegre - E Agora?

Confissões do tempo (republicação)

Não.
Claramente não.
Por mais que queiras não consegues separar-me dos teus dias. Vi-te ontem quando cruzava os horizontes da minha passagem, quando cruzava montanhas e saudades tamanhas.
Vi-te armada de tuas bagagens á beira da estrada como se
esperasses as minhas viagens.
Cheirei inebriado as rosas do teu cabelo e desfiei o teu novelo de razões na minha teia de emoções.
Confesso…
Chorei…
Mas ri do meu choro e ouvi nas minhas lágrimas o nosso riso em coro

Carminho - Chuva no Mar com Marisa Monte

Natal

Foto: João Carvalho (http://saltapocinha.wordpress.com/)

Não se sabia sequer que era um poema
Aquele monte de coisas que cresceram no meu quintal
Cada verso, cada frase, cada ramo
Cada sombra da copa esperava por um Natal
Suspensa das vontades do Homem
Em adorá-la ao menos uma vez por ano
E adubá-la com estrelas, prendinhas e palavras
Surgiam luzes e imunes veios ao desengano
Não sabia sequer que o Natal era um poema
Que havia por ano uma vez só
Nem sabia de que poema se tratava
Nem o sabia de cor
Podia ser trágico ou de amor
Mas cresciam nela ramos novos
Ficam bonitos os velhos
E estrelas e bolas
Para as crianças se verem ao espelho
E era nesses dias que era árvore poema
Árvore de Natal
De crianças e homens
De um Natal por inventar


ESPERA MENINA, PELO BARULHO DOS GUIZOS

Espera menina
Não partas ainda que a poesia não finda
Espera menina
Pelos olhinhos que te faço
Espera menina
Pela estação infinda
Espera menina
Prepara o teu regaço

Esquece os risos e os sorrisos
Esquece o tempo em que tivemos algum tempo
Escuta o barulho dos guizos
Esquece o mau e o bom
Esquece o choro e a lágrima
Escuta a canção e o tom
Esquece os beijos
Esquece o medo e o segredo
Esquece os desejos

Espera menina
Enquanto exploro e desbravo o arvoredo
Espera menina

Flash VII - Mãos e lábios

Apenas as mãos verdadeiras escrevem poemas.
Apenas os lábios verdadeiros dizem poemas.
Não vejo nenhuma diferença entre um verdadeiro aperto de mão e um poema.
Não vejo nenhuma diferença entre entre um beijo e um poema.
Depende da atmosfera, da aura da mão e do beijo.
(Raul Cordeiro... Paul Celan)

Flash VI - Solidão (devaneios)

Há portas na vida que se fecham e se abrem e outras que estão sempre entreabertas como se do outro lado soprasse uma brisa leve que nem fecha a porta nem a abre, mas nos traz beijos de vez em quando.
Alguém disse há uns tempos que a vida é um encontro de solidões.
Eu diria que sim. 
É um encontro de solidões que por vezes se encontram e por vezes se separam.
Por muito que quisesse nunca poderei esquecer as brisas que me aquecem a solidão.
Pode ser perigoso abrir ou fechar demasiado a porta. 
Agrava a solidão.

Poeminha idiota (Republicação)

Queria programar um poema
Falha-me a sintonia
Oculta-me a maresia
Apenas me ocorre que se és o mar
E eu a gota
Queria ser idiota
E deixar-me afogar

fatal

fatal
seria viver
viver sem dor?
seria envelhecer
envelhecer sem angústia?
seria morrer
morrer sem desespero?
e não procurar encontrar sentido para a vida?
seria sentir
sentir sem pensar?
sou um ser uno, poeta do real
objetivo, estático e metafísico
leitor indolente, fatal

Não sei ainda


Foto: Beatriz Lourenço


Não sei ainda
Porque mudaste de banco
E te plantaste à minha frente
Não sei ainda Porque sorriste à minha voz
Porque fizeste das tuas pernas nós
Não sei ainda
O que me levou a dizer-te para vires comigo
Talvez te quisesse segura Para ouvir a tua voz
Ou quisesse apenas experimentar o perigo

Sabes... 
Podia amar-te 
Indefinidamente 

Não sei ainda
Porque dormiste quando olhava para ti
Não sei ainda
Porque fingias a atração contingente
Porque caminhaste à minha frente
Sem olhar para trás
Não sei ainda
Porque te deixei tão facilmente
Ou talvez quisesse ser sério, estupidamente

Sabes... 
Podia amar-te 
Indefinidamente 

Não sei ainda
Porque te encontrei agora
Não sei ainda
Porque me cativam os teus olhos
Porque me fazes pensar tanto
Não sei ainda
O que fazer nem dizer
Talvez quisesse que estivesses aqui
E que bom seria para a minha canção ser diferente

Sabes... 
Podia amar-te indefinidamente

Flash V (a) - Ansiar, angustiar ou neurotizar?

Ansiedade é talvez uma das palavras mais usadas no mundo moderno. À medida que no mundo moderno se multiplicam as exigências também se multiplicam as necessidades, agora mais depuradas pela cultura ou pelos desencantos de infinitas gerações. Se pensarmos então nos perigos materiais o medo entra na equação. A ansiedade difere do medo precisamente pela imaterialidade do perigo, pela sua virtualidade e desconhecimento. 

respirar

O teu querer
É o meu fazer
O teu pensamento
Meu movimento
O teu desejo
Meu ensejo
O teu olhar
Meu mostrar
Teu gostar
Meu respirar

Flash IV – A segurança e o instinto

Se há necessidades vitais, a segurança afectiva e emocional é uma delas. No mesmo mar navegam a incerteza, a insatisfação, o cansaço, o ciúme ou a solidão. 
Umas vezes encontram-se, outras não.
A ideia de haver coincidência de coordenadas entre dois objectos é, no mínimo, uma ficção, uma inversão da realidade.

Não há paraísos. 
Há instintos que se constroem sobre realidades. Às vezes, em duras realidades.

Flash III - A felicidade

A felicidade é um daquelas emoções básicas que integram a nossa bagagem pessoal de suporte essencial de vida tal como o medo, a tristeza e a ira.
Talvez um dos grandes desafios seja compreender a base biológica das emoções.
Assim, se a felicidade é uma emoção básica e tem uma base biológica haverá uma biologia da felicidade e uma biologia da infelicidade?
Entre a alegria e a tristeza ou entre o medo e a ira será a felicidade o racional da bipolaridade? Seria então o choro o racional da tristeza e o riso o racional da alegria? 
E será sinal de evolução biológica chorar de alegria ou rir da tristeza? 
Ou são apenas traições biológicas?
A felicidade parece sim tornar-se na nossa vida uma camisa de forças "florida" cujos limites são os estereótipos sociais.
Felicidade parece referir-se ao ponto em que a a nossa gestão quotidiana parece cruzar-se com a busca do impossível.
E se nesse caminho encontramos alguém (impossível não encontrar) as nossas felicidades encontram-se e aí somos felizes às vezes apenas com uma palavra, um olhar, um toque.

Flash II – Estética do pensamento

Ouvi há uns tempos atrás que um homem que caminha curvado se curva para guardar os seus pensamentos. Não porque esses sejam bons ou maus mas porque são seus. Foram construídos por si na sua lógica humana. Têm uma razão e uma construção estética. Não há exatidão no pensamento e por isso o pensamento é por natureza esteticamente imperfeito. O pensamento perfeito não existe. A imperfeição estética é também o que permite que o pensamento seja livre e único.

Não há dois olhos iguais, duas razões iguais, dois pensamentos iguais. Por isso não duas estéticas iguais.

É essa a liberdade da beleza e da fealdade.
Foto: RC
 

Flash I - Poética e Filosofia

Há na vida de todos nós uma filosofia e uma poesia. Uma dimensão filosófica que nos orienta e guia pela cidade. E uma dimensão poética que nos guia pelo campo.
Uma filosofia que nos dá os dados do nosso sistema de posicionamento global no universo. O que somos, como somos, quem somos com os outros, quem somos sós. Que pessoa somos.
Uma poética que nos liberta das ruas e das orientações, das vozes e das regras.
Uma poética que evidencia o nosso sentido estético e previne a anedonia de uma filosofia centrada na cidade.
A escolha de um sentido para a vida é estético mas também sensorial. É normativo mas impregnado de poesia e conhecimento.
Não há vida sem conhecimento.
Não conhecimento sem cabeça, coração e mão. Sem pensar, sentir e agir.
Não há filosofia nem poesia sem conhecimento.

E pouco mais que...nada




Quem me dera ser esse ser seguro
Assente em colunas firmes e frias
Que pendura o olhar no futuro
E descansa
Seguro como o Sol de Álvaro de Campos          
Ou como a Lua de todos os dias
E dança
Seguro como são seguras as coisas seguras da vida
Como é seguro o adeus da despedida
À medida
Seguro como é segura a terra
Ou como são seguras as estrelas
Balelas
Não
Não sou seguro
Sou apenas uma pequena segurança
Da minha insegurança segura
E pouco
E nada

Foto: João Carvalho
Longe do sítio
Onde me sento e descanso
Perto de um ribeiro manso
Onde rebola o meu versejar
Eu encontrei
Uma pedra de mil tons
Essa pedra tem toques raros
Uns maus e outros bons

Peguei nela devagar
Atirei-a ao céu
Tão longe e tão alto
Como se ele fosse meu

E ela voou e riscou
No céu como um lápis
Um nome nasceu
Com as cores do arco-íris

É raro termos a sorte
De ser cor das cores do céu
De ver de perto
Um pequeno troféu
Erguer-se num mundo incerto
E usar o mesmo olhar
E usar o mesmo respirar
E a mesma pedra de mil tons
Para dar cor ao luar

E ela voou e riscou
No céu como um lápis
Um nome nasceu
Com as cores do arco-íris

Fora de tempo (25/04/2014, Castelo de Vide)


Pus um beijo sossegado
Deitado
Em cima da mesa de entrada
Não há nada
Que um beijo não abra
Não há nada
Que num beijo não caiba
Ninguém lhe tocou
Ninguém o viu à entrada
De tão quietinho
De uma boca tão calada
Um beijo é apenas um beijo
Quietinho
Sossegado e poupado
A uma boca
Que não quer ser beijada
Não há nada
Que um beijo não abra
Não há nada
Que num beijo não caiba

Fora de tempo (25/04/2014, Castelo de Vide)

O que mais há na terra é paisagem*
Em abril há uma terra e uma paisagem
Hoje ouvi os discursos de um abril a sufocar
Com asma do tempo
E medo da idade
Nem velho nem novo
Mas sem Alzheimer, na memória do povo
Hoje ouvi os discursos da memória sem tempo
Mas também os do tempo sem memória
Hoje ouvi os discursos da responsabilidade
E os da culpa dos outros
As palavras da história
E as histórias das palavras
Contadas porque não as conheceu
Porque quem em Abril não nasceu
Nem morreu
Os discursos dos que só veem a paisagem
E o chão
E se esquecem que todos os dias
Nos sapatos lhe caga um cão, um gato, um coelho
Ou um fedelho
O que mais há é quem não veja senão paisagem
E se esqueça da terra
Quem olhe a planície e se esqueça da serra
Ouvi
Ouvi hoje os discursos de um abril a sufocar
Seco pelas rugas
Húmido pela juventude
Um abril devassado por muitos
Mas virgem na virtude
Ouvi hoje os discursos de abril
Sempre
* José Saramago, Levantado do chão

Poema tardio do Dia do Pai (da minha filha Raquel...)

Sei que já venho tarde,
Mas nunca é tarde demais
Para te dizer que para mim és o melhor pai.

És carrancudo e mau,
És protetor e prudente
E são poucas as vezes em que sorris com os dentes.

Comes das minhas guloseimas,
E estás sempre a criticar,
É de manhã à noite,
Do levantar ao deitar.

És viajado e culto,
Mas também reservado e adulto,
Tu és o meu pai,
O melhor pai do mundo.

A razão pela qual não tiveste um miminho,
Foi porque a minha querida filosofia se meteu no caminho,
Impressões e ideias,
Cogito e existência de Deus,
Foi tudo aquilo que me prendeu,
Descartes e Hume já deviam estar a prever,
Que isto ia acontecer.

Descartes provou a sua existência enquanto substância pensante,
Mas é a tua existência que tem de ser constante.

Hume pensava que o conhecimento verdadeiro derivava dos sentidos,
E o conhecimento que tenho por ti é decidido.
É um amor inexplicável,
Que resiste à duvida,
Mesmo de Descartes e de Hume,
E não é possível sequer exprimir,
Pois é um amor que se tem de sentir.

É um amor contraditório,
Mas nada ilusório,
Feliz dia do Pai,

Para ti e para o resto do auditório.

vestido de feira e fato de flanela (letra de música)

é tão grande a distância
e grave a ideia
de ter a tua concordância
ver a tua odisseia
e assistir na plateia

não me deixaste tocar-te
nem com a ponta de um dedo
desviaste de mim o olhar
nem desvendas-te o segredo
nem por coragem nem por medo

fiquei eu meio sem jeito
e equipado a preceito
tu airosa e sobranceira
no teu vestidinho
de tecido de feira

nem me valeu a gravata
nem o fato de flanela
valia mais uns calções
e um jeito de acrobata

e em circo se tornou
este nosso desencontro
raio, corisco e estrela
um vestido de feira
e um fato de flanela

é tão grande a distância
e grave a ideia
de ter a tua concordância
ver a tua odisseia
e assistir na plateia

não me deixaste tocar-te
nem com a ponta de um dedo
desviaste de mim o olhar
nem desvendas-te o segredo
nem por coragem nem por medo