Hoje é o Dia Mundial do Beijo

Poema tardio do Dia do Pai (da minha filha Raquel...)

Sei que já venho tarde,
Mas nunca é tarde demais
Para te dizer que para mim és o melhor pai.

És carrancudo e mau,
És protetor e prudente
E são poucas as vezes em que sorris com os dentes.

Comes das minhas guloseimas,
E estás sempre a criticar,
É de manhã à noite,
Do levantar ao deitar.

És viajado e culto,
Mas também reservado e adulto,
Tu és o meu pai,
O melhor pai do mundo.

A razão pela qual não tiveste um miminho,
Foi porque a minha querida filosofia se meteu no caminho,
Impressões e ideias,
Cogito e existência de Deus,
Foi tudo aquilo que me prendeu,
Descartes e Hume já deviam estar a prever,
Que isto ia acontecer.

Descartes provou a sua existência enquanto substância pensante,
Mas é a tua existência que tem de ser constante.

Hume pensava que o conhecimento verdadeiro derivava dos sentidos,
E o conhecimento que tenho por ti é decidido.
É um amor inexplicável,
Que resiste à duvida,
Mesmo de Descartes e de Hume,
E não é possível sequer exprimir,
Pois é um amor que se tem de sentir.

É um amor contraditório,
Mas nada ilusório,
Feliz dia do Pai,

Para ti e para o resto do auditório.

vestido de feira e fato de flanela (letra de música)

é tão grande a distância
e grave a ideia
de ter a tua concordância
ver a tua odisseia
e assistir na plateia

não me deixaste tocar-te
nem com a ponta de um dedo
desviaste de mim o olhar
nem desvendas-te o segredo
nem por coragem nem por medo

fiquei eu meio sem jeito
e equipado a preceito
tu airosa e sobranceira
no teu vestidinho
de tecido de feira

nem me valeu a gravata
nem o fato de flanela
valia mais uns calções
e um jeito de acrobata

e em circo se tornou
este nosso desencontro
raio, corisco e estrela
um vestido de feira
e um fato de flanela

é tão grande a distância
e grave a ideia
de ter a tua concordância
ver a tua odisseia
e assistir na plateia

não me deixaste tocar-te
nem com a ponta de um dedo
desviaste de mim o olhar
nem desvendas-te o segredo
nem por coragem nem por medo

As minhas pontes

Há no encanto das flores
Uma ponte de mim para mim
Uma garra geológica
Pouco lógica
Como se a poesia que escrevo
Viesse em monte
Em onda trágica
Tornar-me seu servo
E da ponte emergem dois fins
E dois princípios, e um meio
E um receio...

Xutos e Pontapés - De madrugada tu e eu

Luis Represas - Tomara

Há histórias fantásticas

Adormeci hoje a pensar que acordava daqui a uns anos
Num apeadeiro nas crateras da Lua
Onde das estrelas caíam palavras
Que faziam um texto de uma frase nua
Onde, no Mar da Tranquilidade
As pessoas perdiam a idade
Onde não se criavam raízes
E podiam ser eternamente felizes
Onde por entre naves espaciais
Voavam borboletas e flores magistrais
Pássaros Fénix imortais
E aí esperava por ti
Da tua carreira regular de Vénus
Com escala breve por aqui
Fato espacial branco cru
Por cima de um corpo nu
Olhaste e vieste a mim
Onde os semáforos espaciais eram folhas de plátano
Que só mudavam de cor nas estações siderais
Onde o tempo era imponderável
Mas o solo pouco arável
E por isso as flores cresciam no ar sem ar
E não podiam parar a idade
Nem a força da gravidade
Foste breve no olhar mas lenta no respirar
Rarefeito o ar e o teu escutar
Tinhas pressa do espaço e da sua arte
Das velocidades de anos-luz
Dos cruzamentos com Marte
De um voo espacial nocturno
Com passagem por Saturno
Pressa a amores sempre fiéis
De tocares os seus anéis
Agora de saída após a tua partida
Contemplo essa bola azul
De senhora e eterna idade
Onde tudo é terreno e destino
Onde podia tocar-te sem esse fato espacial
Sem que levasses a mal
Onde a gravidade nos agarra à terra
Onde podemos ser pensamento
Mesmo triste
Mas onde a vida existe
É só ela mesmo responde
Quando a Lua se esconde

versos azuis (republicação com foto do João Carvalho)




Escrevo hoje versos azuis
Enquanto choram os olhos
E cantam os dentes e os lábios
Escrever um verso azul
É mais que um momento de poesia
É meu
Suave, quieto e quente
Suor literário do sul

Foto: João Carvalho 

Tecer a vida (Republicação)




Quando a nossa vida
É tecida no tear do tempo
Alvora a eternidade
E em laçadas de fios de prata
Um olho hábil
Constrói a nossa figura social
E nossos sonhos em cascata
Surgem tecidos em tom natural
Numa bitonalidade
Entre o amor e o ódio
Entre os tons cinzentos ou coloridos
De um breve episódio
Numa alegre ou triste remexida
Desse breve tempo
A que chamamos vida

* Foto: João Carvalho 

Vou mudar

Vou mudar agora de ano
E de plano
Vou mudar de dia
E de fantasia
Vou mudar de hora
E de aurora
Vou mudar de bússola
E de pistola
Vou mudar de olhar
E de andar
Vou mudar de sorriso
É um aviso
Vou mudar de mim
Enfim
Mas vou ser eu
Afinal

Natal das ideias




Era já Natal nas ideias
Mas inverno nas cabeças
Carecas, pouco cheias
Era bonita a festa
Luminosa
O Natal das pessoas
Ou o que delas resta
Há pouco para querer
E muito Natal para poder
Ser Natal
E gritar bem alto o refrão
Natal não é hoje
Como todos os dias é verão

* Foto João Carvalho (http://saltapocinha.wordpress.com/)

zonzo



Sabes
Gosto de ir até ao fim
À esquina à espera de mim
Algures no sítio onde me procurarem
Mora a felicidade
Assim zonza, é parte de mim

Música: Tonto por ti - Azeitonas

A felicidade...

A felicidade é um daquelas emoções básicas que integram a nossa bagagem pessoal de suporte essencial de vida tal como o medo, a tristeza e a ira.
Talvez um dos grandes desafios seja compreender a base biológica das emoções.
Assim, se a felicidade é uma emoção básica e tem uma base biológica haverá uma biologia da felicidade e uma biologia da infelicidade?
Entre a alegria e a tristeza ou entre o medo e a ira será a felicidade o racional da bipolaridade? Seria então o choro o racional da tristeza e o riso o racional da alegria? 
E será sinal de evolução biológica chorar de alegria ou rir da tristeza? 
Ou são apenas traições biológicas?
A felicidade parece sim tornar-se na nossa vida uma camisa de forças "florida" cujos limites são os estereótipos sociais.
Felicidade parece referir-se ao ponto em que a a nossa gestão quotidiana parece cruzar-se com a busca do impossível.
E se nesse caminho encontramos alguém (impossível não encontrar) as nossas felicidades encontram-se e aí somos felizes às vezes apenas com uma palavra, um olhar, um toque.

...

prega-me um susto
que eu gosto
de não me fartar das coisas
que são reais
que eu com tão pouca
ao meu barco
no meu cais
não trago a sorte
nem a vida
nem a morte

Já lá vai o tempo em que me escondia

Foto: Raul Cordeiro


Não faço previsões sobre amores certos
Não grito
Não rio
Não minto
Não sei quem sou
Não choro
Não finjo
Não sinto falta de ninguém
Não falo
Não invento histórias
Não sonho
Não chamo amigo a ninguém
Não acredito
Não caio
Não me levanto
Sou eu

sustentação

É uma componente
Perpendicular à brisa
Força diferencial
Vetor simples da linha do botão da camisa
Forças distantes
Aumento de pressão
Componentes de forças aéreas
Densidades divididas por dois
Sustentação


Foto: Raul Cordeiro (18.05.2013)

"água selvagem"


alguma vez te disseram
baixinho
que sabes a água selvagem
que és tu a criatura
que me embaraça
que me faz sentir rio
sem margem
alguma vez alguém te deu
o que te disse eu?

eternidades

pois é...
quanto a nostalgia te atravessa
longe vão os tempos de menino
apaixonado
sobreviveu ao tempo um homem
triste, pouco alegre
amargurado
atravessa-me de repente uma nostalgia
de mim e de ti
estranha mas doce
amarga e eterna

adulta, madura e esguia (ao Dia Mundial da Poesia) - Republicação


Sabes que não há tempo
Como o tempo em escrevia poesia
Em que a noite era dia
Sabes que não custa andar
Não há esquinas no tempo
Nem portas por descobrir
Escrever é deixar ir
A mão atrás da pena
É conjugar verbos
E rir
Sem os alcançar
É ver os pássaros voar
Reunidos em congresso
Quietinhos e atentos no ar
Sabes que não há tempo
Nesta poesia, na minha poesia
Como o tempo de rimar
Sabes que gosto cada vez mais
Da poesia que envelhece
Do verso que é verso
E parece
Sabes que não há tempo
Para crescer a poesia
Ela quer-se à nascença
Adulta, madura e esguia

Cuidado


Há um silêncio secreto no amor desprevenido
Descuidado e pouco sabido
Cuidado com as esquinas que cortam o caminho
E o tornam mais comprido
Cuidado com o animal desprevenido
Que nos assalta o coração
Cuidado com o que escondes na mão
Cuidado com um amor pétreo
Onde se vive Inês
Vivem os amores
E se morre Inês
Morrem as flores
Cuidado com o silêncio
Cuidado





Mil tons (Fora de tempo - Castelo de Vide - 08/03/2013)


Longe do sítio
Onde me sento e descanso
Perto de um ribeiro manso
Onde rebola o meu versejar
Eu encontrei
Uma pedra de mil tons
Essa pedra tem toques raros
Uns maus e outros bons
Peguei nela devagar
Atirei-a ao céu
Tão longe e tão alto
Como se ele fosse meu

E ela voou e riscou
No céu como um lápis
Um nome nasceu
Com as cores do arco-íris

É raro termos a sorte
De ser cor das cores do céu
De ver de perto
Um pequeno troféu
Erguer-se num mundo incerto
E usar o mesmo olhar
E usar o mesmo respirar
E a mesma pedra de mil tons
Para dar cor ao luar

E ela voou e riscou
No céu como um lápis
Um nome nasceu
Com as cores do arco-íris


A fuga do beijo (Fora de tempo - Castelo de Vide - 08/03/2013)

Em cima da mesa de entrada
Não há nada
Pus um beijo sossegado
Deitado
Que um beijo não abra
Não há nada
Que num beijo não caiba
Ninguém lhe tocou
Ninguém o viu à entrada
De uma boca tão calada
Um beijo é apenas um beijo
Sossegado e poupado
Não há nada
A uma boca
Que não quer ser beijada
Não há nada
Que um beijo não abra
Não há nada
Que num beijo não caiba
Ninguém lhe tocou
Ninguém o viu à entrada
De uma boca tão calada
Pus um beijo sossegado
Deitado
Em cima da mesa de entrada
Não há nada
Que um beijo não abra
Não há nada
Que num beijo não caiba
Ninguém lhe tocou
Ninguém o viu à entrada
De uma boca tão calada

todos os beijos



todos os beijos que há no mundo
que sei dar
que sei oferecer
cabem na tua boca
longe dela é seca a terra
longe dela é triste e oca
a luz dos teus olhos
é nulo o desejo
cabe e sai da minha
boca para a tua
simples
um beijo




Canções

Foto: Raul Cordeiro (Estremoz)

Olha lá…
Repete comigo
Se gostas
Diz bem alto
Que estes poemas são pássaros
Que te debicam o coração
E caem como folhas de outono
Na palma nua
Da tua mão
Olha lá
Cala-te e adora
As nuvens que tapam o sol
Esse tempo de primavera
Quente e mole
E diz bem alto
Canta em canção
Que estes poemas são pássaros
Que te debicam o coração

Nada na mão



Nada na mão
Nada na manga
Um folho na saia
Um  laço na tanga
Nada no pensamento
Nada no corpo
Um peso nos ombros
No pescoço uma canga
És burro, não vês
És cego
Escolhes pelos olhos
Uma paisagem desajustada
Maior que o teu ego
Acorda
Põe-te atento
Que matérias leves
E almas desatentas
São leves
Leva-as o vento