Não sei ainda


Foto: Beatriz Lourenço


Não sei ainda
Porque mudaste de banco
E te plantaste à minha frente
Não sei ainda Porque sorriste à minha voz
Porque fizeste das tuas pernas nós
Não sei ainda
O que me levou a dizer-te para vires comigo
Talvez te quisesse segura Para ouvir a tua voz
Ou quisesse apenas experimentar o perigo

Sabes... 
Podia amar-te 
Indefinidamente 

Não sei ainda
Porque dormiste quando olhava para ti
Não sei ainda
Porque fingias a atração contingente
Porque caminhaste à minha frente
Sem olhar para trás
Não sei ainda
Porque te deixei tão facilmente
Ou talvez quisesse ser sério, estupidamente

Sabes... 
Podia amar-te 
Indefinidamente 

Não sei ainda
Porque te encontrei agora
Não sei ainda
Porque me cativam os teus olhos
Porque me fazes pensar tanto
Não sei ainda
O que fazer nem dizer
Talvez quisesse que estivesses aqui
E que bom seria para a minha canção ser diferente

Sabes... 
Podia amar-te indefinidamente

Camané - Voltar (Rodrigo Leão)

Flash V (a) - Ansiar, angustiar ou neurotizar?

Ansiedade é talvez uma das palavras mais usadas no mundo moderno. À medida que no mundo moderno se multiplicam as exigências também se multiplicam as necessidades, agora mais depuradas pela cultura ou pelos desencantos de infinitas gerações. Se pensarmos então nos perigos materiais o medo entra na equação. A ansiedade difere do medo precisamente pela imaterialidade do perigo, pela sua virtualidade e desconhecimento. 

respirar

O teu querer
É o meu fazer
O teu pensamento
Meu movimento
O teu desejo
Meu ensejo
O teu olhar
Meu mostrar
Teu gostar
Meu respirar

Flash IV – A segurança e o instinto

Se há necessidades vitais, a segurança afectiva e emocional é uma delas. No mesmo mar navegam a incerteza, a insatisfação, o cansaço, o ciúme ou a solidão. 
Umas vezes encontram-se, outras não.
A ideia de haver coincidência de coordenadas entre dois objectos é, no mínimo, uma ficção, uma inversão da realidade.

Não há paraísos. 
Há instintos que se constroem sobre realidades. Às vezes, em duras realidades.

Flash III - A felicidade

A felicidade é um daquelas emoções básicas que integram a nossa bagagem pessoal de suporte essencial de vida tal como o medo, a tristeza e a ira.
Talvez um dos grandes desafios seja compreender a base biológica das emoções.
Assim, se a felicidade é uma emoção básica e tem uma base biológica haverá uma biologia da felicidade e uma biologia da infelicidade?
Entre a alegria e a tristeza ou entre o medo e a ira será a felicidade o racional da bipolaridade? Seria então o choro o racional da tristeza e o riso o racional da alegria? 
E será sinal de evolução biológica chorar de alegria ou rir da tristeza? 
Ou são apenas traições biológicas?
A felicidade parece sim tornar-se na nossa vida uma camisa de forças "florida" cujos limites são os estereótipos sociais.
Felicidade parece referir-se ao ponto em que a a nossa gestão quotidiana parece cruzar-se com a busca do impossível.
E se nesse caminho encontramos alguém (impossível não encontrar) as nossas felicidades encontram-se e aí somos felizes às vezes apenas com uma palavra, um olhar, um toque.

Flash II – Estética do pensamento

Ouvi há uns tempos atrás que um homem que caminha curvado se curva para guardar os seus pensamentos. Não porque esses sejam bons ou maus mas porque são seus. Foram construídos por si na sua lógica humana. Têm uma razão e uma construção estética. Não há exatidão no pensamento e por isso o pensamento é por natureza esteticamente imperfeito. O pensamento perfeito não existe. A imperfeição estética é também o que permite que o pensamento seja livre e único.

Não há dois olhos iguais, duas razões iguais, dois pensamentos iguais. Por isso não duas estéticas iguais.

É essa a liberdade da beleza e da fealdade.
Foto: RC
 

Flash I - Poética e Filosofia

Há na vida de todos nós uma filosofia e uma poesia. Uma dimensão filosófica que nos orienta e guia pela cidade. E uma dimensão poética que nos guia pelo campo.
Uma filosofia que nos dá os dados do nosso sistema de posicionamento global no universo. O que somos, como somos, quem somos com os outros, quem somos sós. Que pessoa somos.
Uma poética que nos liberta das ruas e das orientações, das vozes e das regras.
Uma poética que evidencia o nosso sentido estético e previne a anedonia de uma filosofia centrada na cidade.
A escolha de um sentido para a vida é estético mas também sensorial. É normativo mas impregnado de poesia e conhecimento.
Não há vida sem conhecimento.
Não conhecimento sem cabeça, coração e mão. Sem pensar, sentir e agir.
Não há filosofia nem poesia sem conhecimento.

E pouco mais que...nada




Quem me dera ser esse ser seguro
Assente em colunas firmes e frias
Que pendura o olhar no futuro
E descansa
Seguro como o Sol de Álvaro de Campos          
Ou como a Lua de todos os dias
E dança
Seguro como são seguras as coisas seguras da vida
Como é seguro o adeus da despedida
À medida
Seguro como é segura a terra
Ou como são seguras as estrelas
Balelas
Não
Não sou seguro
Sou apenas uma pequena segurança
Da minha insegurança segura
E pouco
E nada

Foto: João Carvalho
Longe do sítio
Onde me sento e descanso
Perto de um ribeiro manso
Onde rebola o meu versejar
Eu encontrei
Uma pedra de mil tons
Essa pedra tem toques raros
Uns maus e outros bons

Peguei nela devagar
Atirei-a ao céu
Tão longe e tão alto
Como se ele fosse meu

E ela voou e riscou
No céu como um lápis
Um nome nasceu
Com as cores do arco-íris

É raro termos a sorte
De ser cor das cores do céu
De ver de perto
Um pequeno troféu
Erguer-se num mundo incerto
E usar o mesmo olhar
E usar o mesmo respirar
E a mesma pedra de mil tons
Para dar cor ao luar

E ela voou e riscou
No céu como um lápis
Um nome nasceu
Com as cores do arco-íris

Fora de tempo (25/04/2014, Castelo de Vide)


Pus um beijo sossegado
Deitado
Em cima da mesa de entrada
Não há nada
Que um beijo não abra
Não há nada
Que num beijo não caiba
Ninguém lhe tocou
Ninguém o viu à entrada
De tão quietinho
De uma boca tão calada
Um beijo é apenas um beijo
Quietinho
Sossegado e poupado
A uma boca
Que não quer ser beijada
Não há nada
Que um beijo não abra
Não há nada
Que num beijo não caiba

Fora de tempo (25/04/2014, Castelo de Vide)

O que mais há na terra é paisagem*
Em abril há uma terra e uma paisagem
Hoje ouvi os discursos de um abril a sufocar
Com asma do tempo
E medo da idade
Nem velho nem novo
Mas sem Alzheimer, na memória do povo
Hoje ouvi os discursos da memória sem tempo
Mas também os do tempo sem memória
Hoje ouvi os discursos da responsabilidade
E os da culpa dos outros
As palavras da história
E as histórias das palavras
Contadas porque não as conheceu
Porque quem em Abril não nasceu
Nem morreu
Os discursos dos que só veem a paisagem
E o chão
E se esquecem que todos os dias
Nos sapatos lhe caga um cão, um gato, um coelho
Ou um fedelho
O que mais há é quem não veja senão paisagem
E se esqueça da terra
Quem olhe a planície e se esqueça da serra
Ouvi
Ouvi hoje os discursos de um abril a sufocar
Seco pelas rugas
Húmido pela juventude
Um abril devassado por muitos
Mas virgem na virtude
Ouvi hoje os discursos de abril
Sempre
* José Saramago, Levantado do chão

Poema tardio do Dia do Pai (da minha filha Raquel...)

Sei que já venho tarde,
Mas nunca é tarde demais
Para te dizer que para mim és o melhor pai.

És carrancudo e mau,
És protetor e prudente
E são poucas as vezes em que sorris com os dentes.

Comes das minhas guloseimas,
E estás sempre a criticar,
É de manhã à noite,
Do levantar ao deitar.

És viajado e culto,
Mas também reservado e adulto,
Tu és o meu pai,
O melhor pai do mundo.

A razão pela qual não tiveste um miminho,
Foi porque a minha querida filosofia se meteu no caminho,
Impressões e ideias,
Cogito e existência de Deus,
Foi tudo aquilo que me prendeu,
Descartes e Hume já deviam estar a prever,
Que isto ia acontecer.

Descartes provou a sua existência enquanto substância pensante,
Mas é a tua existência que tem de ser constante.

Hume pensava que o conhecimento verdadeiro derivava dos sentidos,
E o conhecimento que tenho por ti é decidido.
É um amor inexplicável,
Que resiste à duvida,
Mesmo de Descartes e de Hume,
E não é possível sequer exprimir,
Pois é um amor que se tem de sentir.

É um amor contraditório,
Mas nada ilusório,
Feliz dia do Pai,

Para ti e para o resto do auditório.

vestido de feira e fato de flanela (letra de música)

é tão grande a distância
e grave a ideia
de ter a tua concordância
ver a tua odisseia
e assistir na plateia

não me deixaste tocar-te
nem com a ponta de um dedo
desviaste de mim o olhar
nem desvendas-te o segredo
nem por coragem nem por medo

fiquei eu meio sem jeito
e equipado a preceito
tu airosa e sobranceira
no teu vestidinho
de tecido de feira

nem me valeu a gravata
nem o fato de flanela
valia mais uns calções
e um jeito de acrobata

e em circo se tornou
este nosso desencontro
raio, corisco e estrela
um vestido de feira
e um fato de flanela

é tão grande a distância
e grave a ideia
de ter a tua concordância
ver a tua odisseia
e assistir na plateia

não me deixaste tocar-te
nem com a ponta de um dedo
desviaste de mim o olhar
nem desvendas-te o segredo
nem por coragem nem por medo

As minhas pontes

Há no encanto das flores
Uma ponte de mim para mim
Uma garra geológica
Pouco lógica
Como se a poesia que escrevo
Viesse em monte
Em onda trágica
Tornar-me seu servo
E da ponte emergem dois fins
E dois princípios, e um meio
E um receio...

Xutos e Pontapés - De madrugada tu e eu

Luis Represas - Tomara

Há histórias fantásticas

Adormeci hoje a pensar que acordava daqui a uns anos
Num apeadeiro nas crateras da Lua
Onde das estrelas caíam palavras
Que faziam um texto de uma frase nua
Onde, no Mar da Tranquilidade
As pessoas perdiam a idade
Onde não se criavam raízes
E podiam ser eternamente felizes
Onde por entre naves espaciais
Voavam borboletas e flores magistrais
Pássaros Fénix imortais
E aí esperava por ti
Da tua carreira regular de Vénus
Com escala breve por aqui
Fato espacial branco cru
Por cima de um corpo nu
Olhaste e vieste a mim
Onde os semáforos espaciais eram folhas de plátano
Que só mudavam de cor nas estações siderais
Onde o tempo era imponderável
Mas o solo pouco arável
E por isso as flores cresciam no ar sem ar
E não podiam parar a idade
Nem a força da gravidade
Foste breve no olhar mas lenta no respirar
Rarefeito o ar e o teu escutar
Tinhas pressa do espaço e da sua arte
Das velocidades de anos-luz
Dos cruzamentos com Marte
De um voo espacial nocturno
Com passagem por Saturno
Pressa a amores sempre fiéis
De tocares os seus anéis
Agora de saída após a tua partida
Contemplo essa bola azul
De senhora e eterna idade
Onde tudo é terreno e destino
Onde podia tocar-te sem esse fato espacial
Sem que levasses a mal
Onde a gravidade nos agarra à terra
Onde podemos ser pensamento
Mesmo triste
Mas onde a vida existe
É só ela mesmo responde
Quando a Lua se esconde

versos azuis (republicação com foto do João Carvalho)




Escrevo hoje versos azuis
Enquanto choram os olhos
E cantam os dentes e os lábios
Escrever um verso azul
É mais que um momento de poesia
É meu
Suave, quieto e quente
Suor literário do sul

Foto: João Carvalho 

Tecer a vida (Republicação)




Quando a nossa vida
É tecida no tear do tempo
Alvora a eternidade
E em laçadas de fios de prata
Um olho hábil
Constrói a nossa figura social
E nossos sonhos em cascata
Surgem tecidos em tom natural
Numa bitonalidade
Entre o amor e o ódio
Entre os tons cinzentos ou coloridos
De um breve episódio
Numa alegre ou triste remexida
Desse breve tempo
A que chamamos vida

* Foto: João Carvalho 

Vou mudar

Vou mudar agora de ano
E de plano
Vou mudar de dia
E de fantasia
Vou mudar de hora
E de aurora
Vou mudar de bússola
E de pistola
Vou mudar de olhar
E de andar
Vou mudar de sorriso
É um aviso
Vou mudar de mim
Enfim
Mas vou ser eu
Afinal

Natal das ideias




Era já Natal nas ideias
Mas inverno nas cabeças
Carecas, pouco cheias
Era bonita a festa
Luminosa
O Natal das pessoas
Ou o que delas resta
Há pouco para querer
E muito Natal para poder
Ser Natal
E gritar bem alto o refrão
Natal não é hoje
Como todos os dias é verão

* Foto João Carvalho (http://saltapocinha.wordpress.com/)

zonzo



Sabes
Gosto de ir até ao fim
À esquina à espera de mim
Algures no sítio onde me procurarem
Mora a felicidade
Assim zonza, é parte de mim

Música: Tonto por ti - Azeitonas